"Tropa da Elite", "Rap das Armas" e a cidade de Deus...

"Morro do Dende é ruim de invadir
Nós com os alemão vamos se divertir
Por que no Dende eu vou dizer como é que é
Aqui não tem mole nem pra DRE
Pra subir aqui no morro até a BOPE treme
Não tem mole pro Exército, Civil nem pra PM
Eu dou o maior conceito para os amigos meus
Mas morro do Dende, também é Terra de Deus"
Estas são as primeiras linhas do "Rap das Armas" do duo de funk brasileiro Cidinho e Doca, que anda de boca em boca (sobretudo dos mais novos). Gostaria de acreditar que quando os meus alunos trauteiam o famoso Parapapapapapapa não fazem a mínima ideia do conceito por detrás deste aparentemente inofensivo hit funk.
É também esta a banda sonora que surge no início de um grande filme: "Tropa de Elite", um retrato cru da realidade nas centenas de favelas do Rio de Janeiro e do papel da Polícia Militar (PM) e do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) nesse cenário.
Todos os dias o Rio de Janeiro é uma cidade em guerra, uma guerra sangrenta e estúpida como todas as guerras, com milhares de vítimas (umas inocentes, outras nem por isso). E é fundamentalmente nas favelas, onde a pobreza extrema convive lado a lado com o tráfico de droga, que os grandes criminosos e "barões" armados até aos dentes se abrigam à sombra da corrupção da Polícia e se transformam em "donos" da cidade.
Mais do que a Polícia Militar, totalmente minada pela corrupção, que muitas vezes cede a subornos e "arregos" de vária ordem, o BOPE procura inverter esse cenário diariamente e embrenha-se numa luta muitas vezes inglória, pelos becos dos mais violentos morros da cidade.
"Tropa de Elite" narra a história do Capitão Nascimento, representado pelo talentoso Wagner Moura, um homem dividido entre a obrigação profissional na equipa do BOPE que lidera e a família. O facto de ser uma peça chave no tabuleiro da "guerra" entre o BOPE e os traficantes de droga, leva-o a uma espiral descendente agravada por remorsos e medo de perder a vida. Por ter um filho recém-nascido, a sua profissão, a responsabilidade e pressão nela envolvidas, começam a ser um fardo demasiado pesado.
Temos então a oportunidade de acompanhar o processo de selecção dos elementos do BOPE e as características do seu curso de treino, um dos mais duros e rigorosos do mundo.
Não vou alongar-me em descrições sobre o que acontece no filme, até porque toda a gente o devia ver, nem que fosse para perceber que o Rio de Janeiro está muito longe de ser a cidade maravilhosa que aparece nas telenovelas da Globo. Os laivos de criminalidade retratados por vezes, são pequeníssimas amostras do que é a realidade. A realidade são centenas de vítimas de balas perdidas, são corpos carbonizados encarcerados em pilhas de pneus, são meninos de 13 ou 14 anos de AK47 na mão responsáveis por "bocas de fumo", pequenos pontos de tráfico nas bases das favelas, de onde a droga é distribuida, são cadáveres semeados pelo chão sem ninguém que lhes dê um enterro digno...
É uma realidade que nos entra pelos olhos e pela alma que nos fere e nos deixa um sabor amargo na boca. Indagamos: "Porque será que ninguém faz nada? Se toda a gente sabe que existe este cancro no coração do Rio, porque ninguém toma uma atitude?" O BOPE toma, mas é uma gota no mar... Os homens da farda preta, invadem o morro e atiram a matar, não são como a Polícia portuguesa que tem que dar tiros de aviso. Não matam aleatoriamente, fazem-no cirurgicamente em incursões de "toca e foge" e não hesitam em usar meios de tortura para obter o paradeiro dos seus alvos. É uma guerra de guerrilha a que se trava no Rio de Janeiro e morrem inocentes para alimentar sobretudo o vício de milhares de "maconheiros" (consumidores de haxixe).
Admiro a coragem de quem denuncia, de quem tem a coragem de escancarar assim os podres de uma cidade tão cheia de brilho e vida turística. Admiro o realizador José Padilha pelo filme "Tropa de Elite", e pelo documentário "Ônibus 174" (transmitido há pouco tempo pela SIC), que retrata o sequestro de um autocarro com reféns e a realidade dos meninos de rua. E relembro o magnífico filme de Fernando Meirelles, "Cidade de Deus"... E penso: se Deus existisse, permitiria que existisse uma cidade com o Seu nome escrito a sangue?


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