Amizade
É sempre difícil escrever sobre uma coisa que nos acontece espontaneamente. Procurar palavras (essas pequenas coisas efémeras) para descrever sentimentos que se fundem em milhões de gestos diários pode parecer uma tarefa inglória mas posso tentar...Tive na minha vida (não tão longa quanto isso), diferentes tipos de amizade, como acontece com todas as pessoas. Amizades surgidas em contextos e épocas diferentes e que por isso mesmo assumiram pesos diversos na minha vida. Desde os tempos de escola primária, passando por os oito anos de internato no I.O. e os quase oito de Lar, os primeiros conhecimentos via net no saudoso canal #odivelas do irc e outras virtualidades afins, as amizades da faculdade e mais recentemente algumas através do trabalho, passaram pela minha vida centenas de pessoas... umas ficaram, muitas não...
Criei na minha mente, um pouco involuntariamente, um género de "escala" de amizade. Essa "escala" é gerida pura e simplesmente pelo grau de empatia e "entrega" mútua.
Chamo "amigo" a uma pessoa que admiro e que respeito mas sinto-a como "amigo" quando existe essa empatia a vários níveis. Posso admirar e respeitar uma pessoa mas além de tudo isto é necessária confiança e quando falo de confiança não falo apenas de confidências ou de partilha de vivências ligeiras. Falo aqui de quebra de véus e barreiras, do "despir de cortinas de fumo", da perda de medo de mostrar o que se sente sem medos ou preconceitos.
Por exemplo, alguém que exibe um sorriso "pepsodent" e um "está tudo bem" em qualquer circunstância é algo que me aflige. Faz-me confusão não vislumbrar altos e baixos, tristeza, euforia, excitação, ansiedade, dor... coisas que se sentem e que os olhos mostram. Uma amizade onde não se vê nada disto, para mim, torna-se circunstancial (se bem que tem sempre a possibilidade de evoluir, principalmente com o tempo). Gosto de poder afagar lágrimas, de partilhar pulos de alegria, rir-me da ansiedade... partilhar. As pessoas que até hoje vi chorar são curiosamente as pessoas que mais próximas sinto de mim, são também aquelas com quem partilhei sonoras gargalhadas, conversas da treta numa mesa de café... coisas triviais mas que fazem de nós aquilo que somos...
E é como uma dessas pessoas diz, e muito bem: para se ser amigo, daqueles que está lá sempre, não precisamos compreender o outro, entrar-lhe na alma e folhear a vida dele de trás pra frente. Basta aceitar o outro, com defeitos e qualidades e não impor o nosso modo de ver e viver. Podemos aconselhar, criticar aqui e ali, dar um puxão de orelhas, mas no fim estamos lá com um sorriso para dar... ou um colo (quando é preciso).
É assim que eu vejo isto da amizade... Dar espaço, não impor a minha presença mas fazer por manter o meu espacinho na cabeça daqueles que gosto dando tudo o que posso de mim quer seja numa bela noite de copos e dança no Plateau, como numa conversa a duas no areal da Costa da Caparica.
Posso ter desiludido pessoas, é verdade... posso ter falhado (e falhei muitas vezes). A minha instabilidade e imaturidade levaram-me a meter a pata na poça, a afastar-me de pessoas mesmo sem querer e algumas dessas pessoas são agora impossíveis de resgatar. Mas (existe sempre um "mas" nestas coisas), tenho ainda algumas que fazem de mim aquilo que sou, que me completam (por mais longe que estejam), com quem partilho muito mais do que momentos, muito mais do que palavras, muito muito mais... e que nestes vinte e seis anos de vida me foram aparando as quedas, limpando as lágrimas, dando nas orelhas, rindo das minhas parvoíces, vibrando com as minhas vitórias (por muito pequeninas que sejam) em todos os momentos da minha vida e que por muito que eu procure a solidão, nunca me deixaram estar realmente sozinha...
Imagem: Friendship by spandaj in deviantART


1 Comments:
You'll never walk alone.
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